Tour de France 2015 – Depois do temporal, a calmaria?

Como foi até aqui?

4 etapas completamente diferentes, 4 vencedores diferentes, 4 líderes diferentes, vários enchelons, paralelepípedos, contra-relógios, acidentes graves. O início do Tour teve praticamente de tudo.

A primeira etapa foi um contra-relógio de 13km em Utrecht, Holanda. A prova foi vencida por Rohan Dennis (BMC), que bateu o recorde de Chris Boardman dos anos 90 de contra-relógio mais rápido da história. O australiano fez uma média de 55,446km/h e desbancou os favoritos Tony Martin (Etixx-QuickStep), Fabian Cancellara (Trek) e o local Tom Dumoulin (Giant-Alpecin), que completaram as 4 primeiras posições a menos de 10s de Dennis. Entre os favouritos para a classificação geral, as coisa ficou bem embolada e Nairo Quintana (Movistar) saiu feliz por não ter perdido muito tempo para Chris Froome (Sky), Vincenzo Nibali (Astana) e Alberto Contador (Tinkoff-Saxo).

No dia seguinte, o que era para ser uma etapa tranquila, completamente plana, se transformou num pesadelo nos último terço da prova, quando o pelotão entrou na costa do Mar do Norte rumo à chegada, numa ilha artificial da Holanda. Os ventos cortaram o grupo e uma “mega fuga” se formou com pouco menos de 30 ciclistas. Entre eles, Contador, Froome e Van Garderen (BMC) foram os grande vencedores na classificação geral, abrindo cerca de um minuto e meio para os adversários. André Greipel (Lotto-Soudal) venceu Peter Sagan (Tinkoff-Saxo) e Cancellara no sprint. A ironia da prova foi que com o suíço na 3a posição, os segundos de bonificação o levaram a vestir a camisa de líder, ficando 3 segundos à frente de Tony Martin, que continuou na 2a posição. E o pior de tudo para Martin foi perder a chance de liderar a prova devido seu companheiro, Mark Cavendish, desistir do sprint no final, facilitando a vida de Cancellara. Com certeza a DR deve ter sido longa no hotel da Etixx-Quickstep.

Na segunda, uma versão simplificada da Flèche Wallone, culminando no Mur de Huy, uma subida curta porém duríssima. Apesar dela, o momento mais importante do dia foi o acidente que vitimou vários atletas. William Bonnet (FDJ) foi o primeiro a cair e levou a pior, fraturando uma vértebra do pescoço além de outros hematomas. Entre os ciclistas que abandonaram relacionado a esse acidente, temos Cancellara, que machucou novamente uma vértebra que havia fraturado no começo do ano. A Orica-Greenedge também perdeu Simon Gerrans e Daryl Impey, além de Michael Matthews estar continuando no Tour no sofrimento. Tom Dumoulin também foi forçado a abandonar devido a um ombro deslocado. Adam Hansem (Lotto-Soudal), que vai na sua 12o grande volta consecutiva, também machucou o ombro numa queda mas disse que “come dor no café da manhã” e vai continuar.

Um ponto do acidente que causou muita confusão foi o fato de neutralizarem a prova quando ele ocorreu. Logo começaram acusações que era porque o líder Cancellara estava envolvido, que era um precedente grave. Mas logo foi data a (correta) explicação de que não haviam ambulâncias e carros médicos disponíveis, já que todos estavam socorrendo os acidentados. Como a corrida só pode continuar com apoio médico, foi necessário neutralizar.

Na chegada em Huy, um pelotão reduzido começou a subida e Froome ditou o ritmo no começo, mas nem ele foi capaz de responder ao ataque de Joaquim Rodriguez (Katusha), vencedor da Flèche Wallone em 2012. Com o segundo lugar, Froome conseguiu a camisa de líder e ficou 1s à frente de … Tony Martin, que continuou como vice.

Hoje, terça, foi o dia mais temido para todos os ciclistas na classificação geral: os paralelepípedos do nordeste da França. Entre eles, algumas seções usadas na Paris-Roubaix. Apesar do vento, não tivemos chuvas fortes como no ano passado e um grupo relativamente grande chegou ao final. A 3km do fim, cansado de bater na trave, Tony Martin aproveitou o vácuo de uma moto da organização e lançou um ataque. Apesar de muitos ciclistas, o grupo estava bastante desorganizado e o alemão conseguiu finalmente vencer e, principalmente, vestir a camisa de líder. E isso tudo depois de ter um problema e pegar uma bicicleta emprestada com um colega quase 10cm mais baixo. Enquanto isso, Thibaut Pinot (FDJ) pareceu recusar a bicicleta de um companheiro quando teve problemas nos últimos setores de pedras e acabou ficando muito para trás, perdendo mais de 3 minutos. Apesar de ter potencial, Pinot parece ter esses momentos de pânico em que não consegue pensar direito e acaba tendo “apagões”.

O que vem por aí

Enquanto na classificação geral as coisas devem se acalmar um pouco, na disputa dos sprinters os próximos dias serão fundamentais, com 150 pontos à disposição de quem vencer a prova, além de 60 pontos nos sprints intermediários. Depois, apenas 2 etapas terão 50 pontos para o vencedor, incluindo o final no Champs-Élysées. No momento, Greipel lidera com 84 pontos contra 78 de Sagan e 60 de Degenkolb. Duas dessas etapas são em chegadas planas, mas a outra é em subida, perfeita para Sagan, Matthews (se tiver se recuperado do acidente) e, em certa forma, Degenkolb.

Nas outras equipes, hora de lamber as feridas desse começo caótico e tentar guardar forças para o contra-relógio por equipes de domingo. Porém, algumas dessas próximas etapas podem ser palco de ventos fortes, trazendo lembrança do desespero que foi o segundo dia.

Pessoalmente, creio que a surpresa até agora tem sido Warren Barguil (Giant-Alpecin). Depois de vitórias na Vuelta-13 e a oitava colocação na Vuelta-14, o jovem francês (23 anos) está em 11o na geral, depois de estar presente em vários momentos chaves da prova até aqui: Na fuga que venceu a 2a etapa e sobrevivendo aos paralelepípedos. A maior preocupação para ele no momento deve ser o contra-relógio por equipes, já que o principal motor da sua equipe, Dumoulin, foi forçado a abandonar.

Visualizando a classificação

Aproveitando o tour e o “sabático forçado”, estou montando um site simples para visualizar melhor o progresso nas classificações. Às vezes um gráfico ajuda a mostrar quem está perdendo tempo na terceira semana, quem se recuperou daquela etapa horrível na 1a semana, etc. Acho que amanhã ainda devo ter algo no ar. Quem sabe não vira uma feature nova no ProCyclingStats?

* Ryder Hesjedal (Cannondale-Garmin) e Steven Kruijswijk (LottoNL-Jumbo) perderam vários minutos na 4a etapa do Giro deste ano, mas conseguiram se recuperar e terminar entre os 10 melhores (5o e 7o, respectivamente).

Muito além do Tour – Parte I

Para a maioria das pessoas a expressão “ciclismo profissional” lembra apenas o Tour de France, um dos maiores eventos esportivos do mundo. Apesar de sua importância, o Tour é apenas a corrida mais importante de um complexo sistema, envolvendo quase 200 times e cerca de 1000 eventos, coordenado pela União Ciclística Internacional (UCI)

Neste post veremos como se divide o calendário do ciclismo e as divisões de equipes. No próximo post, uma visão geral das corridas mais importantes do calendário.

As categorias de corridas

A temporada do ciclismo é composta de vários calendários secundários. O principal deles, o UCI World Tour, é composto pelas corridas mais importantes ao longo do ano, como o Tour de France, o Giro d’Italia, a Vuelta a España e a Paris-Roubaix, onde todas as principais equipes são obrigadas a participar, junto com algumas equipes menores convidadas. Logo abaixo estão os calendários continentais, que misturam as equipes grandes e menores. Os calendários continentais são chamados de acordo com o continente que representam: UCI Europe Tour, UCI America Tour, etc.

Todos os calendários são compostos por corridas de um dia, chamadas de clássicas, e corridas de estágios, chamados de tours, voltas, giros, etc. Nos calendários continentais, as clássicas são classificadas como 1.X, enquanto as voltas recebem a classificação 2.X, onde X é o nível de importância das corridas.

Os principais eventos continentais são os HC, como a Omloop Het Nieuwsblad, primeira 1.HC do ano, e o Giro del Trentino, 2.HC que muitos ciclistas usam como corrida preparatória para o Giro d’Italia. Logo em seguida vêm os eventos 1, como o Chrono des Nations (1.1), contra-relógio que fecha a temporada européia e o Tour de San Luis (2.1), crescente prova de nossos hermanos. Por fim, todos os outros eventos recebem o sufixo 2, como é o caso das brasileiras Copa América de Ciclismo (1.2) e Tour do Rio (2.2).

As divisões do ciclismo profissional

Como qualquer esporte o ciclismo também é dividido em divisões, com equipes gigantes com orçamentos milionários como Sky Procycling e Omega-Pharma QuickStep no topo da cadeia e equipes semi-amadoras no nível mais baixo. A “primeira” divisão é composta por 19 equipes chamadas de ProTeams. Logo após estão as equipes Pro Continentais (20) e por último as Continentais.

ProTeams

Para um time ser considerado um ProTeam ele deve fazer o pedido de uma licença para a UCI. O processo de licenciamento é bastante complicado, envolvendo critérios administrativos, éticos, financeiros e esportivos. O INRNG postou no final do ano passado sobre o processo de licenciamento e depois sobre os critérios esportivos (pontuação). Esse processo de licenciamento levou, no final do ano passado e começo deste ano, a uma queda de braço entre a UCI e a Katusha, de Joaquim Rodriguez, que apesar de ter ficado em segundo lugar no ranking do World Tour (e Rodriguez em primeiro) não teve sua licença renovada pela UCI. A equipe acionou a justiça e garantiu o direito de participar do certame.

Carro de apoio da Sky.

Segundo as regras da UCI, os ProTeams devem empregar no mínimo 23 ciclistas, 2 diretores esportivos e 8 outros funcionários (médicos, massagistas, mecânicos).

Pro Continental

Logo abaixo dos ProTeams estão as equipes Professional Continental, também chamadas de Pro Continental. Elas possuem uma estrutura menor mas ainda assim significativa e muitas conseguem bons resultados em eventos do World Tour, onde participam como convidadas, a exemplo da Team Europcar no Tour de France do ano passado e a NetApp-Endura na Vuelta deste ano. Para serem consideradas Pro Continental, as equipes passam por um processo parecido com os ProTeams, se candidatando a licenças emitidas pela UCI.

Continental

Por fim, as equipes restantes registradas na UCI recebem a categoria Continental. As restrições à essas equipes deve ser determinada pela federação do país dessa equipe, aquele com maior número de ciclistas na equipe.

Nesse nível o Brasil tem duas equipes: Clube DataRo de Ciclismo e Funvic BrasilInvest-São José dos Campos.

Nações

Em alguns eventos as equipes participantes são equipes nacionais, como no Tour d’Avenir (2.Ncup), para atletas com até 23 anos de idade.

Combinando equipes e corridas

Uma vez que temos as divisões de equipes e corridas, quais as restrições para cada uma delas?

  • World Tour
    • ProTeams (obrigatório).
    • Equipes Pro Continentais convidadas.
  • 2.HC e 1.HC
    • ProTeams (máximo de 50%, ou 70% no caso da Europe Tour).
    • Pro Continentais.
    • Continentais do país do evento.
    • Nacionais do país do organizador do evento.
  • 2.1 e 1.1
    • ProTeams (50%).
    • Pro Continentais.
    • Continentais.
    • Nacionais.
  • 2.2 e 1.2
    • Pro Continentais do país do evento.
    • Continentais.
    • Nacionais.
    • Regionais e clubes de ciclismo.