Giro 100

13 de Maio de 1909. Há exatos 107 anos, 11 meses e 26 dias nascia em Milão a irmã do meio das grandes voltas. Inspirada pelo do Tour de France, do jornal francês L’Auto, e aproveitando o sucesso do Giro di Lombardia e da Milan-San Remo, a La Gazzetta dello Sport organizou o que veio a ser, segundo alguns, uma corrida tão importante quanto o próprio Tour, apesar de não chamar tanta atenção fora do mundo ciclístico. Disputada em 8 etapas, a prova foi vencida por Luigi Ganna e tinha um modelo de classificação geral bem diferente do qual estamos acostumados. Ao invés de somar o tempo dos ciclistas, ao final de cada etapa a posição de cada um era somada e quem tivesse o menor número – ou seja, a menor média de posição – era o campeão. Além disso, haviam etapas de até quase 400km.

Muita coisa mudou desde então, com a criação das outras classificações, como a Maglia Azzurra de melhor escalador e a Maglia Ciclamino de sprints por pontos. Sem contar, desde 1931, o que eu considero um símbolo mais bonito que a Maillot Jaune do Tour: A Maglia Rosa de líder da classificação geral.

Para 2017, ano da 100ª edição, a organização buscou no trajeto relembrar momentos importantes do Giro, como as montanhas de Oropa e Piancavallo que marcaram a carreira do pirata Pantani.

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Adeus, Scarponi

Às vesperas da primeira etapa, um dos ciclistas mais queridos do pelotão, Michele Scarponi, faleceu ao colidir com um caminhão durante um treino, bastante próximo de casa. Ele seria o líder da Astana no Giro (ano passado ele foi providencial na vitória de Vincenzo Nibali) e vinha de um ótimo Tour dos Alpes, onde venceu a primeira etapa. Do vencedor do Giro de 2011 ficam as belas memórias e as homenagens. A organização do Giro deu o nome de “Subida Scarponi” à passagem do pelotão pelo Mortirolo, na 16ª etapa.

Sardenha

As três primeiras etapas se foram na Sardenha, onde se esperava algo como 2 etapas de sprint mornas (1 e 3) e uma etapa talvez para uma fuga (etapa 2). O começo das etapas realmente foram mornos, com especulações de que os ciclistas estariam fazendo “live” direto das bicicletas. Porém os finais das etapas 1 e 3 fugiram completamente do script.

Na primeira etapa, uma curva muito apertada a pouco mais de 3km desmontou os trens dos sprints e Lukas Pöstlberger – não, não é parente do Gehard Berger –  embalador da Bora-Hansgrohe, apareceu sozinho na frente. Nas palavras dele, “tentamos embalar Sam Bennett, mas ele perdeu minha roda, e quando vi um espaço, decidi tentar eu mesmo”. A Orica-Scott ainda tentou reconectar mas Caleb Ewan tinha apenas um embalador já gasto que não conseguiu. Vitória surpreendente do austríaco e primeira vez desde os anos 30 que um austríaco lidera uma grande volta. Entre os candidados à classificação geral, Steven “Kururu” Kruijswijk acabou ficando mal colocado na curva que causou a confusão e perdeu alguns segundos.

Na segunda etapa, com uma montanha que segundos alguns seria muito pesada para os sprinters, mais pela distância (26km) que pela inclinação (3,2%), acabou numa disputa de sprint entre os trens da Orica-Scott e Lotto-Soudal, trabalhando respectivamente para Caleb Ewan e André Greipel, com Fernando Gaviria (Quick-Step Floors) de intruso. Ao lançar o sprint, o australiano acabou desclipando do pedal num contato com o colombiano e o “Gorilla” alemão acabou ganhando com relativa facilidade.

Já na última etapa antes do traslado para a Sicília, um perfil de etapa simples, com apenas uma montanha categoria 4. Porém a mistura de “Quick-Step” com ventos laterais resolveu dar as caras novamente e nos últimos 12km a equipe desmontou o pelotão graças especialmente aos trabalhos de Bob “Selva” Jungels e Iljo Keisse – esse mais conhecido por quase matar Carlton Kirby do coração. No final, uma diferença que chegou a quase 30s acabou caindo para 13s, mas o suficiente para Gaviria conseguir sua primeira vitória numa grande volta e a camisa de líder na geral. Jungels também ganhou 13s em relação a outros na CG, mas resta a dúvida se a conta de tal esforço virá nas próximas semanas.

O que vem por aí

Nesta primeira (segunda?) semana do Giro teremos já na terça (4ª etapa) o Monte Etna, onde Contador transformou o pelotão em cinzas (tum-dum-tssss) em 2011. A subida será por um caminho diferente, aparentemente mais irregular que em 2011. Muita expectativa está sendo colocada nessa etapa como primeiro embate real pela classificação geral. Além do Etna (~18km @6,6%), no meio da etapa temos a Portella Femmina Morta, com apenas 4,5% de inclinação mas longos quase 33km. Ela não deve causar grandes danos de cara, mas é longa o suficiente para drenar energia que fará falta no final.

Pessoalmente acho que apenas alguns dos nomes que correm por fora que devem tentar algo mais concreto. Apesar de bastante alta (quase 1900m), o último km é relativamente plano e não acho que Quintana tente algo muito arriscado logo de cara. Mais provável ele guarde as energias para a dificílima 3ª semana e a subida ao Blockhaus no domingo. Por outro lado, a inclinação aumenta para 9% entre 3 e 2km do fim, distância favorita de Quintana para seus ataques.

Uma das coisas para se ficar de olho é na disputa interna no Team Sky entre o “líder oficial mas não em público” Geraint Thomas e “o co-líder em público mas correndo por fora” Mikel Landa.

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Entre quarta e sábado, as chegadas não serão em montanhas. Mas isso não quer dizer que sejam planas. Tanto que etapas puramente de sprinter sobraram apenas as etapas 12 e 13.

Na 5ª etapa, uma visita à cidade natal do Tubarão Nibali, Messina. A etapa tem um começo bastante complexo, passando por várias cidades num trajeto ondulado, para terminar um circuito de 6km que será feito apenas uma vez. Depois de um retorno numa rotatória a 1,75km do fim, uma longa reta leva o pelotão à chegada.

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A 6ª etapa começa a percorrer a costa italiana junto ao mar Tirreno, entre Reggio Calabria e Terme Luigiane, antes de atravessar para o Adriático na etapa seguinte. Depois de um vale bastante plano no meio da etapa, vários “morrinhos” dificultam um pouco as coisas no final e a partir de 2km para o fim uma rampa vai aumentando gradativamente a inclinação até 10%. Um final para os puncheurs disputarem e para os canditados à CG perderem aqueles segundos preciosos num corte por mau posicionamento.

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Na sexta-feira, a 7ª etapa não tem tantas ondulações mas oferece algumas curvas relativamente apertadas nos últimos km. Depois do que aconteceu na primeira etapa, os times devem estar mais preocupados ainda com o posicionamento dos líderes.

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Antes da tormenta de domingo, a 8ª etapa oferece um final bastante ondulado, com os 2km finais parecidos com os da etapa 6. Porém além da inclinação crescente, esta etapa tem várias curvas em sequência e a reta de chegada, de 200m, é coberta com pavés e 12% de inclinação segundo o roadbook, apesar do Google Street View mostrar um asfalto de qualidade duvidosa.

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Segunda é o dia de descanso. Mas antes vem a parede do Blockhaus. Com 13km e a maior parte a mais de 9%, será um grande teste antes do contra-relógio de terça feira. A dificuldade pode ser ainda maior do que os números mostram porque a montanha é precedida por uma subida de mais de 10km a quase 5% não categorizada entre Scafa e Roccamorice.

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Palpites da próxima etapa (4)

  • Vencedor: Pelotão da CG: Pinot (FDJ) ou Zakarin (Katusha-Alpecin). Se fuga, Rolland (Cannondale-Drapac).
  • Daniel Teklehaimanot (Dimension Data) vai sair na fuga e tentar os 15 pontos da montanha Cat 2 antes do Etna, além dos pontos dos 8 pontos do Traguardi Volanti, sprint intermediário. O africano está a apenas 7 pontos de Greipel.

De olho na semana

  • A disputa interna na Sky.
  • Quando Greipel arruma as malas para dar adeus e se preparar para o Tour?
  • Quem da CG vai dar adeus ao sonho no Etna e no Blockhaus?
  • Quem vai abrir vantagem na liga dos cornetas no Velogames?

Até breve!

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