Tour de France 2013 – Conclusão

Passou rápido…

Após 21 estágios, 3.403km e muitas montanhas, o Tour de France de 2013 terminou domingo passado, 21 de Julho, em Paris. Diferente da edição passada, neste ano tivemos etapas emocionantes do início ao fim. Desde a caótica primeira etapa até o belo sprint final ao anoitecer no Champs-Élysées.

Percurso da 100ª edição.

 

Consagração de Froome

Chris Froome (Sky) chegou ao Tour como franco favorito depois de vitórias no Tour de Omã, Tour da Romandia e Critérium du Daphiné e de ter sido o fiel gregário de Bradley Wiggins na vitória da edição passa. Logo na primeira etapa de montanha assumiu a Maillot Jaune e mostrou a que veio, colocando mais de um minuto nos seus adversários diretos, que ganharam uma pequena esperança quando a Sky foi trucidada na etapa seguinte e deixou Froome isolado durante boa parte do tempo. No primeiro contra-relógio individual, outro golpe do britânico aumenta mais ainda a diferença e assusta o campeão mundial de contra-relógio Tony Martin (Omega).

Froome no 1º contra-relógio individual.

A Saxo até que tentou e conseguiu tirar um pouco de tempo na 13ª etapa, mas Froome venceu com autoridade no Mont Ventoux e ampliando sua vantagem. Após um pequeno susto na descida até Gap, Froome de certa forma surpreendeu e ganhou o contra-relógio individual nas montanhas por uma pequena vantagem sobre Alberto Contador (Saxo-Tinkoff). No Alpe d’Huez e em Annecy-Semnoz, Froome perdeu um pouco de tempo para Nairo Quintana (Movistar) e Joaquim Rodriguez (Katusha), mas nada que o pudesse ameaçar na liderança geral.

Curiosidade: Nas duas vezes anteriores em que uma equipe conseguiu dois títulos em sequência com dois ciclistas diferentes, o vencedor da 2ª edição foi vice na edição anterior. Além da Sky com Wiggins e Froome, isso aconteceu com a La Vie Claire (Bernard Hinault e Greg LeMond, 85-86) e Team Telekom (Bjarne Riis e Jan Ullrich, 96-97).

Pistoleiro bem que tentou, mas não acertou o alvo

Se Froome teve uma performance inesquecível, Alberto Contador deve estar querendo esquecer o mais rápido possível. Mesmo com uma equipe forte (Rogers, Kreuziger, Roche), ele ficou longe de parecer o Contador dos velhos tempos (Ok, houve o episódio do bife nesse intervalo). O pistoleiro em nenhum momento foi capaz de atacar nas subidas e deixar outros ciclistas para trás. Seus melhores momentos na montanha foram o ataque na descida até Gap, em que acabou se machucando, e o ataque na descida entre as passagens no Alpe-d’Huez, onde logo foi alcançado. Em alguns momentos até mesmo Kreuziger parecia mais em forma que o espanhol. De positivo, apenas a aula de como atacar no vento durante a 13ª etapa.

Após o Tour, o então patrocinador da equipe, Oleg Tinkoff, fez declarações públicas no twitter criticando o espanhol, afirmando que ele ganha muito e não tem fome de vitória suficiente. Alguns dias depois, o diretór da equipe, Bjarne Riis, anunciou que a Tinkoff não continuaria como patrocinador no próximo ano…

Purito e a 3ª semana

Chegando ao Mont Ventoux, Joaquim “Purito” Rodriguez estava apenas na 10ª posição, a 5:48 de Froome. Mas a partir da mítica montanha, Purito foi ganhando força e, junto com Nairo Quintana, conseguindo ficar à frente dos rivais e galgar posições. Em algumas etapas, como dito anteriormente, conseguindo até mesmo deixar Froome para trás.

No final, o espanhol conseguiu a façanha de alcançar seu terceiro pódio consecutivo em grandes voltas, após o 2º lugar no Giro e 3º na Vuelta em 2012. Dessa vez pelo menos ele conseguiu terminar a prova de forma ascendente, enquanto nas outras duas ele liderava até bem próximo do final.

Belkin e a 3ª semana

Antes do Mont Ventoux a Belkin tinha dois ciclistas entre os 5 primeiros, com Bauke Mollema em 2º a 2:28 de Froome e Laurens Ten Dam em 5º a 3:01. A partir da terceira semana, os dois começaram a perder muito terreno para os outros, com Ten Dam especialmente “pipocando” na etapa do Alpe-d’Huez e terminado o Tour em 13º a mais de 21 minutos de Froome. Mollema, mesmo com alguns problemas de saúde, conseguiu salvar o 6º lugar.

Onde está a França?

País sede do Tour, com 36 vitórias ao longo das 100 edições, a França teve suas esperanças frustadas com o abandono de Thibaut Pinot (FDJ) e Pierre Rolland (Europcar) mudando o foco para a disputa de montanhistas, mas sem sucesso. Além disso, Thomas Voeckler (Europcar) não fez nada relevante além de algumas caretas. Jean-Christophe Péraud (Ag2R) até que vinha fazendo um tour decente, firme entre os 10 primeiros, mas um, digo, dois, azarados tombos na 17ª etapa forçaram seu abandono devido a uma fratura na clavícula.

Para consolação, Christophe Riblon (Ag2R) conseguiu uma bela vitória no Alpe-d’Huez e o prêmio de combatividade geral. O jovem Romain Bardet (Ag2R) foi o melhor colocado na classificação geral, em 15º. Com apenas 22 anos, ele é mais uma promessa dessa nova geração.

Onde está a BMC?

A BMC chegou com pompa e circunstância ao Tour de 2013 com a liderança dividida entre Cadel Evans e Tejay Van Garderen. Além dos dois, o campeão mundial Philippe Gilbert também era uma aposta da equipe para vitórias em algumas etapas. Logo na primeira etapa de montanha, Van Garderen perdeu 8 minutos para Evans, que ficou a 4 minutos de Froome, próximo aos 10 primeiros.

Durante todo o Tour, Gilbert conseguiu ficar entre os 10 primeiros da etapa apenas em duas ocasiões, em 5º na terceira etapa e em 8º na décima-sexta etapa, seguindo sem vencer corridas desde que ganhou a camisa de campeão do mundo.

Na última sequência de etapas de montanha, Cadel Evans jogou a toalha já no contra-relógio da 17ª etapa, onde foi apenas o 167º colocado. Na ocasião ele havia afirmado que havia desistido da classificação geral e talvez lutaria por vitórias nas etapas, algo que não aconteceu nos 3 estágios seguintes, onde sua melhor colocação foi 80º no Alpe-d’Huez. Nessa mesma etapa Van Garderen de certa forma ainda salvou um pouco de tempo de TV para a BMC na sua batalha contra Christophe Riblon.

Kittel, Kittel, Kittel, Kittel

Chegando à última etapa, Sagan já havia garantido a classificação por pontos mas nenhum sprinter era mais comentado do que Marcel Kittel (Argos-Shimano). O alemão de 25 anos até então havia vencido três etapas, incluindo a etapa inicial, e vestido a camisa de líder do tour por um dia. Além disso, conseguiu o feito de vencer Mark Cavendish (Omega) mesmo quando este teve um sprint sem problemas.

Com o cair da noite na Champs-Élysées, a Argos ofereceu a Kittel um belo trem de sprint e ele não decepcionou, conseguindo bater dois dos maiores sprinters da atualidade, André Greipel (Lotto) e Cavendish e conquistar sua quarta vitória.

Sagan pode ter ficado com a Maillot Vert, mas “o” sprinter do Tour 2013 foi Marcel Kittel.

Colombia es Pasion

Colombia es Pasion foi o nome de uma equipe continental colombiana hoje conhecida como 4-72 Colombia, mas bem que poderia ser o nome do sentimento de grande parte da torcida para com o pequeno colombiano Nairo Quintana. Com o desastre de Valverde na 13ª etapa, a Movistar depositou todas as fichas da classificação geral em Quintana, que não decepcionou e foi galgando lugares com sua expressão séria, primeiro despachando Michal Kwiatkowski (Omega) na classificação dos jovens na etapa do Mont Ventoux, depois permanecendo com Rodriguez, abrindo até mesmo de Froome na etapa do Alpe-d’Huez. No final, coroou seu Tour vencendo com autoridade em Amnecy-Semnoz, conquistando o 2º lugar geral e a camisa de melhor escalador.

Fantasmas do passado

Apesar de toda festa da 100º edição, o domínio de Froome levantou algumas sobrancelhas e várias pessoas se perguntaram se estaríamos vendo um novo Lance Armstrong. Além disso a performance de Quintana e Rodriguez na última semana também acendeu a luz amarela para alguns.

Parte desse ceticismo se deve ao trabalho de algumas pessoas, incluindo cientistas, que usaram modelos matemáticos e o tempo dos ciclistas para subir as montanhas, comparando com resultados do passado recente, teoricamente limpo, e da era negra de Armstrong. Em algumas ocasiões, os ciclistas superaram os resultados esperados, fazendo os pesquisadores ligarem o sinal amarelo. Ou seja, essas performances poderiam ser indicadores de possível doping, mas longe de serem provas, como bem frisado por eles. Porém parte da mídia e principalmente a torcida entenderam errado e já começaram as acusações, com a Sky liberando seus dados para um analista do jornal L’Equipe para tentar acalmar os ânimos.

Mas como Barry Ryan bem descreveu no CyclingNews:

O escrutínio enfrentado por Froome e a relutância de muitos em aclamar o novo campeão do Tour não é apenas uma reação direta à derrocada de Armstrong, mas a consequência de repetidos novos alvoreceres durante a longa noite que tem durado 15 anos.

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