Tour de France 2013 – Análise da primeira metade

Com a etapa de ontem, o primeiro contra-relógio individual, passamos da metade dessa edição. Adiante, mais alguns estágios de transição e a última semana nos Alpes, uma das mais difíceis dos últimos anos. No restante desse artigo, um pequeno resumo de algumas das histórias que se desenrolaram durante essa primeira parte.

Trajeto do Tour 2013

Froome imbatível…

Christopher Froome (Sky) já era o favorito antes do Tour, com as apostas ficando até abaixo de 1-1. Mas ninguém esperava que ele teria mais de 3 minutos de vantagem já na metade do Tour, com apenas 2 etapas de montanhas e 1 contra-relógio percorridos. O primeiro dos dois golpes mais fortes de Froome foi na chegada de montanha de Ax 3 Domaines, onde marcou um tempo digno da época de “ouro” do doping, atrás apenas do inominável Lance Armstrong  e Roberto Laiseka, em 2001. Em segundo, o companheiro Richie Porte, a 51 segundos, seguido por Valverde, a mais de 1 minuto.

Essa performance logo ligou a luz amarela para muita gente. Num artigo para a Outside Magazine, Michael Puchowicz M.D., o  “Doc” do perfil @Veloclinic, escreve a respeito de como foi analisado o resultado de Froome para que essa luz amarela se acendesse. Em outro editorial, “Podemos confiar no pelotão”, que serve como introdução para o artigo anterior, a Outside Magazine também questiona a postura da Sky, que se nega a fornecer os dados de Froome relativos à potência despendida, alegando que as pessoas não saberiam interpretar. E essa desculpa de “confiem em nós, estamos limpos” já apareceu várias vezes na história do ciclismo profissional.

Quando a poeira parecia baixar, Froome faz um contra-relógio impressionante na 11ª etapa, ficando a apenas 12 segundos de Tony Martin, campeão mundial da modalidade, e abrindo mais 2 minutos para os principais adversários na classificação geral. Novamente as luzes amarelas se acendem…

… Sky nem tanto

Na etapa seguinte, a Movistar, Garmin e Saxo-Tinkoff forçaram o pelotão, deixando Froome sozinho na frente boa parte da corrida, e fazendo Porte chegar a 18 minutos do vencedor, além de mandar Vasil Kiryienka (Sky) para casa por chegar fora do tempo limite. Essa pode ser uma tática bastante usada nos Alpes durante a última semana, para desespero das equipes que tinham numa fuga a chance de vitória.

Pistoleiro blefando ou sem balas?

Antes do Tour, Alberto Contador (Saxo-Tinkoff) era o principal adversário de Froome para o título, mas na montanha Ax 3 Domaines  ele não mostrou reação aos ataques da Sky, sendo acompanhado de seu gregário Roman Kreuziger até o final e mostrando sinais de dificuldade. No contra-relógio, Contador também teve dificuldades, ficando atrás de Valverde e Mollema, adversários na geral, e apenas alguns segundos na frente de Kreuziger. Estaria El Pistolero realmente sem balas ou blefando e aguardando os Alpes?

Ano passado, durante a Vuelta, Joaquim Rodriguez (Katusha) parecia imbatível nas montanhas e caminhava para o título, mas na 17ª etapa Contador lançou um ataque que destruiu a vantagem de Rodriguez e lhe deu a liderança da competição.

Sagan vs Cavendish vs Greipel vs Kittel

Antes do início, era esperada uma batalha entre Mark Cavendish (Omega) e Peter Sagan (Cannondale), este último vencedor da Maillot Vert (classificação por pontos) de 2012. Passadas 12 etapas, temos Sagan com a Maillot Vert e uma folgada vantagem de quase 100 pontos para Cavendish. Abaixo, um gráfico mostrando a evolução da pontuação dos 5 primeiros no ranking de pontos até a etapa de hoje:

Exceto na primeira etapa, quando ficou preso no acidente que também afetou Cavendish e Greipel, Sagan conseguiu disputar o sprint final em todas etapas que não foram de grandes montanhas ou contra-relógio. Duas etapas fundamentais para a campanha de Sagan foram a 2ª e 3ª, onde algumas montanhas deixaram todos os outros fortes sprinters para trás e ele pode assumir a liderança. Mas o golpe de misericórdia até o momento parece ter sido a 7ª etapa. Nela a Cannondale liderou o pelotão por mais de 100km e levou Sagan à sua primeira vitória no Tour de 2013 e mais 65 pontos, além de deixar os outros sprinters zerados.

Kittel, Kittel, Kittel

Falando em sprinters, depois de um Tour de 2012 desastroso, onde abandonou por conta de uma infecção viral, Marcel Kittel parece estar compensando em 2013. Venceu a 1ª etapa e vestiu a Maillot Jaune, de líder no geral. Na 10ª etapa, foi o primeiro ciclista a vencer mais de uma etapa em 2013. E na 12ª, conseguiu a façanha de ultrapassar Mark Cavendish mesmo quando este teve um sprint aparentemente sem problemas.

Implosão francesa

As expectativas do país sede estavam em Thibaut Pinot (FDJ) e Pierre Rolland (Europcar) para a classificação geral e em Nacer Bouhanni (FDJ) para vitória nos sprints. Passada a primeira metade, Bouhanni foi forçado a abandonar durante a 5ª etapa devido aos efeitos de quedas e infecções. Pinot está a distantes 36 minutos de Froome na classificação geral, em 36º lugar. Recentemente ele andou se perguntando o que estava fazendo no Tour, devido a seus problemas em descidas. Quando era mais jovem, Pinot sofreu um acidente e desde então tem um bloqueio psicológico que ocasionalmente vem à tona em relação à velocidade nas descidas. Rolland, por outro lado, está em 27º, a 16 minutos e é o líder na classificação de montanhas. Nas primeiras etapas, ele lançou alguns ataques para os (poucos) pontos de montanha e após a etapa 9, se declarou fora da luta pela classificação geral, buscando apenas alguma vitória para a equipe e quem sabe manter a Maillot à Pois (Camisa de bolinhas).

Decepções à parte, o melhor ciclista francês na classificação geral é Jean Christophe Péraud (Ag2R), de 36 anos, no momento 10º colocado a 5:39. Em 2011 ele terminou na 9ª colocação. Nos pontos, a melhor colocação foi um 5º lugar de Willian Bonnet (FDJ) no sprint final da 10ª etapa.

Semana dos Cangurus

Os australianos da Orica-GreenEDGE são a equipe mais nova da UCI World Tour, tendo sido fundada em 2011 e admitida no certame em 2012. Ano passado, Matthew Goss ficou em 3º na classificação por pontos, atrás de Sagan e Greipel, mas sem vencer nenhuma etapa. Neste ano, pode-se dizer tudo da Orica-GreenEDGE na primeira semana, exceto que ela foi discreta. Na primeira etapa, o ônibus da equipe ficou preso no pórtico da linha de chegada, causando o caos do final da etapa. Na terceira, Simon Gerrans venceu, dando à Orica a sua primeira vitória no Tour. No dia seguinte, a equipe ficou a menos de 1 segundo na frente da Omega Pharma-QuickStep, conquistando sua segunda vitória e dando a camisa amarela a Gerrans. Até Froome assumir, a equipe passou 4 dias com a Maillot Jaune. E para comemorar a agitada semana, montou um clipe de homenagem ao AC/DC.

Liderança resolvida e dor de cabeça na BMC

Outra dúvida antes do Tour era o relacionamento entre Cadel Evans e Tejay van Garderen, ambos com potencial para serem capitão da americana BMC. Evans embalado depois do 3º lugar geral no Giro e Van Garderen da vitória no Tour da Califórnia. Mas bastou a primeira etapa de montanhas para Van Garderen “pipocar” e ficar a 8 minutos de Evans, de certa forma resolvendo a questão da liderança. Porém o próprio Evans ficou a 4 minutos de Froome, complicando a vida da equipe. Philippe Gilbert, atual campeão mundial, vem fazendo um Tour discreto.

Rabobank, digo, Blanco, digo, Belkin, mineirinha

Ano passado, durante o escândalo da USADA versus Armstrong, a Rabobank, que patrocinava o tradicional time de mesmo nome desde 1996, anunciou que iria fundear o time para 2013, mas sem associação com seu nome. Enquanto procurava um novo patrocinador, a equipe assumiu o nome de Blanco. A partir do Tour, entrou em cena a Belkin, nova patrocinadora da equipe. Discretamente, Bauke Mollema e Laurens Ten Dam escalaram a montanha de Ax 3 Domaines no seu ritmo, enquanto Froome  e Porte destruíam os outros à frente. No final, ambos ultrapassaram até mesmo Contador e chegaram em 4º e 5º. Com a quebra de Porte, Mollema assumiu a 3ª colocação no geral e se aproximou bastante de Valverde após o contra-relógio.

Batalha dos jovens

Na disputa pela Maillot Blanc de melhor ciclista até 25 anos, os dois nomes que se destacaram foram os de Michal Kwiatkowski (Omega) e Nairo Quintana (Movistar), ambos com 23 anos. Kwiatkowski conseguiu se manter na frente durante as etapas da Córsega, inclusive disputando alguns sprints, e é figurinha constante na frente do pelotão trazendo Cavendish. Quintana ganhou a camisa na 8ª etapa, e a manteve até o contra-relógio individual, quando o polonês terminou à frente e ficou com 34 segundos de vantagem no total. Outros nomes que apareciam como favoritos mas tiveram problemas e estão a mais de 5 minutos de desvantagem eram van Garderen, Pinot e Andrew Talansky (Garmin).

O que vem por aí

Ainda teremos duas etapas de transição até chegar aos Alpes. A primeira montanha será domingo, o majestoso Mont Ventoux. Após o descanso de segunda, uma etapa de montanhas médias na terça, um contra-relógio de montanhas na quarta e 3 pesados dias, com montanhas como Alpe d’Huez, Col de la Madeleine e Annecy-Semnoz. E no domingo, o final ao anoitecer no Champs-Élysées.

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