Cent fois Le Tour de France

“Eles parecem com gado de um jeito estranho – gado em cima de bicicletas”

No próximo sábado, 29 de Junho, começa a 100ª edição do Tour de France, o principal evento do ciclismo profissional no mundo. 198 ciclistas partirão da Córsega rumo a Paris, percorrendo 3.403km em 21 etapas. Eles partem com os mais variados objetivos, desde a vitória até apenas sobreviver. Este artigo apresenta algumas histórias para acompanhar durante essa edição e no final, uma lista de lugares onde você pode acompanhar o desenrolar delas.

Para uma introdução ao Tour de France, o site Pra Quem Pedala preparou um belo artigo antes da edição do ano passado.

A 100ª edição.

A 99ª edição contou com massivos 100km de contra-relógio individual e relativamente poucas montanhas, que serviram para Bradley Wiggins confirmar as expectativas e se tornar o primeiro britântico campeão do Tour. A estratégia da Sky funcionou perfeitamente e tornou as corridas nas montanhas monótonas para alguns, uma vez que Wiggins não ganhou um segundo sequer em cima de Froome e Nibali nessas etapas. Para 2013, a ASO, organizadora do Tour e do Rali Dakar, diminuiu sensivelmente os contra-relógio, sendo 25km por equipes e 65 individuais, 32 desses em uma etapa com duas montanhas.

Entre as etapas mais esperadas estão a 15ª, a mais longa, com 242km, terminando nas paredes brancas do inexorável Mont Ventoux. A inclinação de pouco mais de 7% pode parecer pouco, mas são mais de 21km subindo e um ganho de 1600 metros de altitude. Outra etapa muito esperada é a 18ª, em que os ciclistas escalarão duas vezes os infinitos cotovelos do Alpe d’Huez, com a perigosa descida após Col de Sarenne entre elas. Vendo as fotos, Tony Martin parece ter razão por achar perigoso esse trecho. Vale lembrar que após a morte de Wouter Waylandt no Giro de 2011, o Monte Crostis foi removido do próprio Giro justamente por não ter condições seguras para a descida. Para fechar, a chegada no Champs-Élysées será durante o pôr do sol para quem sabe mais uma vitória de Mark Cavendish.

Mont Ventoux

Froome vs. Contador

A grande questão dessa edição: Froomedog ou El Pistolero? Qual dois dois fica com o primeiro lugar geral? Depois dos segundos lugares na Vuelta 2011 e Tour 2012 e quarto lugar na Vuelta 2012, menos de 2 meses depois do Tour, esse parece ser o ano de Froome (Sky). No Tour de 2012 ele sacrificou a luta pela vitória correndo como fiel gregário de Wiggins e em alguns momentos até tendo que pegar leve para esperar o capitão apesar de se mostrar mais forte nas montanhas. Ele começou o ano de forma excepcional, com vitórias no Tour de Oman, Criterium International, Tour de Romandie e Critérium du Dauphiné, essa última tida como principal prova preparativa para o Tour. Por outro lado, Alberto Contador (Saxo-Tinkoff), que já possui 2 Tours, 1 Giro e 2 Vueltas na bagagem, até agora teve um ano discreto, sem vitórias em classificações gerais mas com resultados sólidos como 2º em Oman, 3º no Tirreno-Adriatico e 10º no Dauphiné, onde afirmou estar com 75% de sua condição física e serviu de gregário para seu companheiro Michael Rogers. E como a Vuelta do ano passado mostrou, nunca duvide do Pistolero.

Apesar das várias vitórias, Froome experimentou uma derrota amarga na 6ª etapa do Tirreno-Adriatico, nos morros de  Porto Sant’Elpidio. Durante o ano de 2012, em especial durante o Tour, a Sky se mostrou uma máquina de controlar corridas em montanhas, com o seu trem de ciclistas em ritmo forte, anulando os ataques com eficiência. Aliado à força de Bradley Wiggins no contra-relógio, a idéia era minimizar as perdas nas montanhas, além quebrar a maior parte concorrentes. Porém essa estratégia é de difícil aplicação em montanhas irregulares, com gradientes leves e pesados intercalados, onde um ataque efetuado na hora correta permite um distanciamento maior quando o gradiente diminuir. Em Sant’Elpidio, os ciclistas tiveram que passar três vezes por uma subida em Sant’Elpidio a Mare que no papel era listada como sendo 1,9km de distância e graduação 6,1%. Porém essa subida era muito irregular, com trechos de 27%. Essa irregularidade, aliada à chuva forte, destruiu a estratégia da Sky. Froome, mesmo começando com 20 segundos de vantagem após vencer a principal etapa, terminou a etapa 48 segundos atrás de Vincenzo Nibali, vencedor final do Tirreno. Se por um lado pode ter sido um golpe nas ambições de Froome, visto que ainda imperava o clima de guerra fria com Wiggins a respeito de quem iria liderar a Sky no Tour, pode ter servido como uma bela lição a todo time.

Diferente de Wiggins, Froome não tem medo de tomar riscos como mostrou nas corridas seguintes com alguns ataques. Junto com a explosão de Contador, essa edição é uma das disputas mais esperadas dos últimos anos. Além dos dois, o próprio Froome citou outros corredores fortes com chances de vitória no geral: Joaquim “Purito” Rodriguez (Katusha), Alejandro Valverde e Nairo Quintana (Movistar), Cadel Evans e Tejay Van Garderen (BMC).

Cavendish vs. Sagan

Se ano passado tivemos montanhas de menos, sobraram estágios ondulados e Peter Sagan (Cannondale) soube tirar proveito disso vencendo 3 etapas no início do Tour e vencendo a classificação por pontos com 421 pontos contra 280 de André Greipel (Lotto), segundo colocado. Além do perfil das etapas, a Sky Procycling foi para o Tour focada na classificação geral, deixando Mark Cavendish sem uma boa equipe para o guiar para os sprints finais. Mesmo assim Cav conseguiu 3 vitórias, incluindo a 4ª seguida na etapa final, um recorde, e uma vitória espetacular na 18ª etapa, onde mais uma vez justificou seu apelido de Míssil de Manx. De quebra, chegou a 23 vitórias no Tour, o recorde ao considerar apenas etapas normais sem contra-relógio e 4º lugar no geral.

Em 2013 teremos 6 etapas que podem ser consideradas completamente planas e Cavendish está numa forma espetacular, tendo vencido 5 etapas e a classificação por pontos no Giro, onde aproveitou para treinar a sobrevivência nas montanhas. Além disso o trem de sprinters da Omega-Pharma Quickstep parece estar cada vez mais afinado. Correndo por fora, temos André Greipel e Marcel Kittel (Argos-Shimano).

Renascimento francês

A França, apesar de ser a casa do Tour, está num jejum de vencedores desde 1985, último ano do domínio de Hinault e Fignon. Apesar de nomes promissores como Jalabert e Voeckler terem batido na trave em algumas edições, nos últimos dois anos dois nomes fortes surgiram nas figuras de Pierre Rolland, da Europcar, e Thibault Pinot, da FDJ. Pinot inclusive encenou um dos momentos memoráveis da edição do ano passado ao vencer a 8ª etapa e levar o diretor da equipe, Marc Madiot, à loucura.

Apesar dos esforços de Pinot, 10º colocado, o melhor corredor francês foi Rolland, 8º colocado, companheiro do incansável Voeckler e vencedor de uma etapa. Rolland também ganhou o prêmio de melhor ciclista jovem da edição de 2011.

A surpresa sul-americana

Uma das sensações de 2013 tem sido os resultados dos colombianos, em especial Rigoberto Urán (Sky), Carlos Betancur (Ag2r) e Nairo Quintana (Movistar). Uran foi 2º no Giro, Betancur foi 3º na Fleche Wallone, 4º na Liège-Bastogne-Liège e 5º no Giro, onde também foi o melhor jovem. Ambos não participarão do Tour. A honra ficará com Quintana, que foi 4º na Volta a Catalunya e venceu a Volta ao País Basco, fato que rendeu suspeitas a respeito de sua performance, com alguns comentaristas afirmando que ele veio “do nada”. Mas como o INRNG mostrou, Quintana já mostrava resultados promissores desde 2010. Apesar do potencial, Quintana inicialmente deve trabalhar como gregário de Valverde. Resta ver o desenrolar das primeiras semanas para saber se a Movistar liberará Quintana para disputar a camisa de melhor montanhista ou uma posição mais alta na classificação geral.

Brasil no Tour

Apesar da raridade de ciclistas de nível mundial no Brasil, Murilo Fischer continua ativo no pelotão. Após três anos na Garmin, Murilo foi para a FDJ, onde será o único estrangeiro no time para o Tour, fazendo parte do trem de sprint para Nacer Bouhanni. Murilo também completou o Giro deste ano, junto com Rafael Andriato, da Vini Fantini.

Cadel incansável

Depois do título de 2011, Evans teve um Tour desastroso em 2012, onde enfrentou problemas de saúde e acabou ficando atrás de seu jovem colega de equipe Tejay Van Garderen. Desde então, dada a diferença de idade (36 vs. 24), muitos davam como certo que o líder da BMC no Tour seria Van Garderen, apesar da insistência de Evans em correr o Tour. Desde o início do Giro de 2013, Cadel mostrou que ainda estava em forma e, mesmo sem ser sua principal prova no ano, chegou em 3º lugar, assegurando o lugar de líder em Julho.

Onde acompanhar

Além do site oficial do Tour, vários outros sites oferecem uma infinitude de dados e análises.

Em inglês um site indispensável é o Cycling News, que narra ao vivo as corridas e traz muito material antes, durante e depois das mesmas. É meu site favorito para ver o resultado final das etapas.

O INRNG – The Inner Ring é, na minha opinião, o melhor blog sobre ciclismo profissional. Atualizado com excelentes artigos, incluindo prévia das etapas, análises sobre os resultados, textos sobre os problemas do doping no ciclismo. Também traz matérias sobre o mundo do ciclismo profissional além das corridas em si, como nesse vídeo sobre assistir o Tour de Flanders na colina Paterberg.

Outro blog que descobri recentemente foi o CycloCosm, editado por  Cosmo Catalano. Sua série de vídeos “How the race was won” é um ótimo resumo das corridas, sempre com uma bela dose de humor. No twitter: @Cyclocosm.

Em português, temos o blog Pedaladas, de Bruno Vicari, jornalista da Jovem Pan e do SBT. Recentemente ele listou 15 motivos pelos quais assistir essa edição do Tour, alguns deles já descritos acima. Como vou estar de férias durante as primeiras semanas do Tour, devo ir colocando pequenos boletins diários com os resultados do dia e comentários aqui no Ciclocoisas. No twitter, também temos o @CornetaCiclismo com seus comentários ácidos. Outro site brasileiro é o podcast Radio Corsa.

ESPN Brasil transmitirá a 1ª etapa ao vivo, a partir das 10:30 de Brasília. Durante o Giro tivemos uma excelente transmissão com Everaldo “Jesus. Maria. José.” Marques no comando e comentários de Celso Anderson.

Caso não tenha acesso a uma televisão, o Steephill.tv oferece, além de muita informação, links e galerias de imagens, uma lista de streams, digamos, alternativos, para acompanhar a prova através dos canais europeus.

Bem, por enquanto é isso. Vive le Tour!

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